Peregrino

por Zerob Peregrinoaug 30th, 2020

Peregrino é aquele que viaja. Que vive a andar
por muitos e diferentes lugares.
Que ama todas as diferenças porque tem uma fé
do tipo e do tamanho que afasta preconceitos.

Pouco lhe basta pra viver. Sabe como ninguém
que o valor dos homens não se mede pelo
o quanto possuem, mas pelo o quanto que são.

Respeita a todos, e em especial
aos que pouco têm e aos que muito sabem.

Tem paixão pelo saber
 e pelos caminhos que levam ao conhecimento.
Não se envergonha de suas emoções
e até as estimula, como amante das artes
e admirador das belezas da vida que é.


Há 25 anos eu sequer imaginava as transformações que minha vida passaria ao descer aquele monte naquela manhã fria de outono. Só sabia que havia mudado.

Passei a noite no Monte do Gozo para dedicar meu último dia do Caminho a entrar bem cedinho em Santiago de Compostela, ouvir os primeiros sons do campanário da catedral e pensar que os sinos tocavam só pra mim. Difícil era controlar a bicicleta na descida do monte com os olhos molhados de lágrimas e sereno. Meu cérebro se encarregava de exibir um filme inédito. Mas era impossível prestar atenção nele enquanto rezava, cantava e tentava me concentrar na descida. O vento frio no rosto era um aliado da segurança, um protetor materializado que me acordava o suficiente para me preservar íntegro. Diferente dos que descem o monte caminhando e ouvem o ruído dos passos responsáveis pela regência dos pensamentos, nos trechos mais suaves era o puro silêncio da manhã que a bicicleta permitia ouvir. Só nas descidas mais íngremes é que os solavancos e ruído das freadas me sacudiam e serviam para trocar os episódios do filme da mente, que eu sequer prestava atenção.

Uma atmosfera de mistério pairava ao redor. Nada sobrenatural, apenas um ambiente incomum. Não via divindades, mas não tinha dúvidas de que elas me viam. Percebia isso. Mas tratávamos como algo bem natural, tanto eu quanto elas. Eu não tinha nada de especial e as divindades eram simples moradoras locais, assim parecia. Pensava ouvi-las dizer “buen camino”. Só pensava. Naquele momento surgia uma fagulha de certeza, coisa rara nos últimos dias em minha mente que só tratava de economizar o Caminho, já triste por ele estar próximo de acabar. Por que não ouvir, ou pensar ouvir, um “bienvenido” mas continuar a ouvir, ou pensar ouvir, “buen camino”?

Aos poucos a neblina da manhã se recolhia. Era chegada a hora de ver como o mundo estava. Não me surpreenderia se me deparasse com algo diferente na natureza: uma nova coloração no céu, uma árvore surrealista, um som minimalista de pássaro ou a materialização das emoções poéticas as mais primitivas. Mas a grande surpresa foi constatar a inteligente simplicidade do mundo ao redor. Como no último estágio do conhecimento Zen, as montanhas são montanhas e os rios são rios. E saber isso provoca na gente um suspiro de alívio, tranquilidade, a leveza que o conhecimento traz. Sentia que o Caminho havia completado o conhecimento acadêmico com uma dose certa e necessária de empirismo. Mais suspiros de alívio. 

Hoje, passados 25 anos, celebro o 29 de setembro de 1995 como o dia em que me diplomei no que hoje sou e sempre permanecerei sendo: um peregrino.

Ao fim da descida do Monte do Gozo pedalei com mais vigor. Já não mais economizava no ritmo e até tinha pressa em chegar e cumprir meus rituais de peregrino, em Santiago. Meu Caminho estava só começando. Assim eu entendia e me sentia muito feliz e estimulado com isso.

Pórtico da Glória - Catedral de Santiago - 29 de setembro de 1995